Lutar para esquecer

Oblivion.

Para mim, uma das palavras mais bonitas do mundo, que, por consequência também significa o meu maior medo.

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Quem me conhece sabe que sou uma pessoa bastante agarrada às memórias. Faço delas um pequeno refúgio que invoco constantemente, talvez até em demasia. Quando me perguntam porque é que associo certas músicas a momentos ou porque gosto tanto de fotografias, respondo sempre que é uma maneira de conservar curtos espaços de tempo onde fui feliz ou, lá está, criei memórias. Oblivion está para inglês como saudade está para português, ou seja, não há tradução.

Oblivion expressa a condição de desaparecimento de alguém, quase como um verbo que demonstra o momento em que alguém foi completamente esquecido. Assim como falava no post anterior de ideias que, se fossem transmitidas de mente em mente, se tornava reais, José Saramago, escritor e Nobel português, disse, uma vez, que as pessoas existem até a última pessoa se lembrar delas.

Infelizmente, desde cedo, tive de aprender a lidar com memórias e a manter alguém presente, apenas por meio de fotografias ou de lembranças de momentos. Tinha apenas um mês quando o meu pai morreu num acidente de viação, o que faz com que nunca o tivesse conhecido. Bem, ou mal, a minha família sempre manteve a memória dele bem presente. Sempre me contaram histórias e sempre fui habituada a ver fotos espalhadas pela casa, como se ainda estivesse vivo.

Imagem007.jpgAcho que o meu amor pela recordação e o medo do esquecimento vem de família, pois, também o meu pai era obcecado em  fotografar momentos e daí resulta a única coisa que tenho com ele: uma fotografia. Sei que, devido às memórias que foram criadas à minha volta, a ligação que tenho ao meu pai faz com que o “invoque” constantemente, como se estivesse estado sempre aqui. Digo, com frequência, que andamos lado a lado todos os dias, de uma maneira inseparável. Sinto que, por um lado mais negativo, a nossa obsessão pelo “não esquecimento” faz com que as coisas nos passem um pouco ao lado, visto que acabamos por não as viver no momento mas a recordá-la como algo que já passou.

Apesar de ter medo de coisas parvas, como por exemplo foguetes, o esquecimento é algo que temo bastante. Faz-me confusão como, de um momento para o outro, se pode esquecer do nome de alguém, da cara, dos gestos, do tom de voz ou até do cheiro. Como o desvanecimento da imagem de uma pessoa pode acontecer com uma rapidez incrível. Sou uma pessoa que pensa demasiado e acabo, por vezes, a pedir às pessoas de quem mais gosto para não me esquecerem. Parvo, não é? Mas assusta-me, realmente, a possibilidade de um dia, ninguém saber quem fui, o que fiz ou como era.

Ao ler o livro “Império do Medo: No interior do Estado Islâmico”, de Andrew Hosken, apercebi-me da maneira como o medo pode mover multidões, assim como pode fazer agi-las sobre determinados comportamentos ou até fazê-las abandonar tudo, para garantir algo que damos por tão certo como a vida.

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O Império do Medo fala acerca da ascensão da conhecida organização jihadista islamita ISIS, ou  Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Após uma pesquisa intensiva para tentar entender melhor esta organização (que ninguém vá verificar o meu histórico…) percebi que, apesar de terem a seu lado um forte exercito de crentes em Alá e todo o tipo variado de armas,  estes operam, essencialmente, a partir do medo. O livro retrata a vida do próprio jornalista correspondente da BBC Radio 4, que desde cedo acompanhou a ascensão do dito Estado Islâmico (nome dado a partir de 29 de junho de 2014), até ao poder que lhe conhecemos hoje.

O ISIS opera essencialmente no médio Oriente. Têm como lema “Remanescendo e Expandindo”, sendo também portadores de uma bandeira, um brasão de armas e até um hino, intitulado “Minha Nação, ao Amanhecer Apareceu”. O governo tem como base um califado, ou seja, funciona como um reino comandado por um Califa (alguém que se afirma como descendente direto de Maomé), atualmente, Abu Bark al- Baghdadi. Auto-proclamam-se como uma autoridade religiosa mundial, que tem controlo sobre todos os muçulmanos do mundo, onde o seu maior desejo é invadir o resto do mundo, a começar por toda a região do Levante que incluí países como a Jordânia, Palestina, Chipre ou Turquia.

Considerada como uma organização terrorista, este grupo nem sempre teve as proporções que tem hoje.Na sua origem estiveram vários grupos que acabaram por se fundir num só. Entre eles está a famosa Al-Qaeda (2003-2006), responsável pelos ataques às Torres Gémeas, em Nova Iorque, 11 de setembro de 2004. O seu crescimento deve-se, sobretudo, à participação na Guerra Civil da Síria e ao novo líder, que ascendeu ao poder após Saddam Hussein ter sido capturado pelo exercito americano.

Em todas as terras que são conquistadas pelo ISIS, os habitantes passam a ter de se converter ao islamismo, a partir da interpretação sunita da religião e têm de obedecer à Lei Charia (conjunto de leis do estado islâmico). Todos aqueles que não obedecerem acabam por sofrer todas as consequências das quais estamos habituados a ouvir falar: torturas, mutilações ou penas de morte. Por norma, a maioria das vitimas é muçulmana, síria ou cristã.

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Mancha territorial comandada pelo Grupo

Segundo fontes da CIA, no inicio do ano de 2014, o Estado Islâmico tinha entre 20.000 e 31.5000 combatentes na zona da Síria e Iraque. Acredito que a maioria tenha passado a fazer parte deste grupo pois prefere sobreviver. Apesar do Estado preferir treinar os militantes desde pequenos, raptando-os às suas famílias ou adoptando órfãos, pois são mais “passivos” (sofrem uma lavagem cerebral), o fim último do EI é sempre o maior número de crentes e apoiantes de Alá, o que faz com que toda a gente que afirme defender os mesmo ideais acabe por ser aceite. Apesar das relações estreitas com o grupo AL-Qaeda, estes cortaram relação com o ISIS no ano de 2014, alegando a elevada brutalidade do grupo e a sua interpretação errada dos mandamentos de Alá.

O livro, para além de relatar toda a história das diferentes partes que compõe o grupo, explica também todos os ideais que este defende, assim como os seus objetivos enquanto grupo e tudo aquilo que pretendem atingir. A sua preocupação principal sempre foi a fundação do estado islâmico, visto que a meta sempre fora a formação do tão aclamado califado. Após a tomada de posse do novo califado, este mesmo afirmou “A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nulo pela expansão da autoridade do califado e pela chegada das suas tropas nas suas áreas”. Assim, com um número infinito de vídeos lançados e comunicados, que ajudam, todos os dias a espalhar o terror vivido no mundo, como todos os atentados, raptos e homicídios em direto aos quais assistimos, na televisão, todos os dias, esta organização invade as nossas casas de uma maneira que, nem o próprio grupo, acharia possível.

No final do ano de 2014, num video lançado pela organização no site Youtube, era possível observar-se um jovem, tapado, com um inocente à sua frente, de joelhos, com uma arma apontada à cabeça pelo próprio soldado sírio. Enquanto isto, o membro da ISIS aclamava os direitos do seu povo, dizendo que iria humilhar os soldados americanos e elevar a bandeira islamita sobre a Casa Branca. No que toca aos países da Europa, estes iram ser invadidos, mulheres irão ser capturados e filhos irão ser transformados em órfãos, num ato de vingança para com todos os países que combateram contra este estado.

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Território Reivindicado pelo Estado Islâmico

Podemos saber que uma cidade está sobre o poder do EI quando esta apresenta uma serie de características comuns a todos os outros territórios reivindicados:

  1. No topo do edifício mais alto da cidade é possível observar uma bandeira negra;
  2. Há uma campanha de recrutamento para o exército, a partir de pequenas “lavagens cerebrais”, por meio de obrigação à prestação de serviços comunitários em locais devastados pela guerra;
  3. São distribuídas pendrives com todos os cânticos e vídeos de operações militares e atentados até agora efectuados, acompanhadas de um folheto contra a democracia e a necessidade de cada pessoa se permanecer em silêncio e excomungar todos aqueles que não querem fazer parte, em segredo;
  4. A lei islâmica é imposta;
  5. O principal modo de persuasão é sempre o medo e a intimidação pela realização de atos violentos.

Falando um pouco mais das suas ideologias (algo que nunca soube o porquê de ser assim e decidi investigar um pouco mais), o EIIL segue a linha extremista da Al-Qaeda, com os princípios da jihad global. A ideologia “mãe”, assenta na Irmandade Muçulmana, fundada no final dos anos 20, no Egipto, que promove a violência religiosa e considera que devem ser banidos todos aqueles que não concordarem com a sua interpretação. Com origem no ramo moderno do Islã, o grupo quer voltar a restabelecer aquilo que se diz como “espírito original”, ou seja, o espírito do califa que fundou o movimento e que detêm de todos os princípios mais sagrados.  Para a divulgação destas ideias, foi criado o “alFurqan Institute for Media Production”, responsável pela produção de CDs, DVDs, cartazes, propaganda física que possa ser distribuída e por todos os conteúdos disponíveis online. Desde 2014 que os materiais passaram também a ser produzidos em inglês, alemão, russo e francês.

Em termos financeiros o grupo sobrevive através de doações externas (muitas vezes realizadas a partir de cidadão que, ao converterem-se, doam tudo ao grupo), através do tráfico de armas, humano, droga e de bens apreendidos.

Há que ter em mente a atualidade desde grupo e a capacidade que o mesmo tem de se reinventar. É de destacar a velocidade a que este cresceu, assim como todo o mal e danos que já causou. São um assunto preocupante, que entra pelas nossas casas todos os dias. São eles que nos fazem ter medo de andar de transportes públicos, de sítios com muitas pessoas ou até mesmo de uma simples burka. Estima-se que, apenas este ano, o grupo já tenha feito, no mínimo, um milhão de vítimas, entre as quais mulheres e crianças. É este grupo que é responsável pelas migrações de milhares de pessoas, dispostas a deixar tudo para traz para sobreviver. Sinceramente, não me ocorre a maneira mais correta de os travar pois, todos os que vão para combater, acabam por ficar por lá. Apenas peço uma solução, assim como toda a gente. E uma solução rápida pois, o nosso medo, vai ser sempre a sua maior conquista. 

 

 

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