Reflexões do tamanho de um polegar

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 Decidi começar este comentário com um imagem que me chama bastante à atenção. Como se pode ler, 2016 ficou marcado pelo facto de, pela primeira vez, os caloiros do secundário vão olhar para acontecimentos como o 11 de Setembro como algo que aconteceu antes deles nascerem.

 Como reparamos todos os dias, à nossa volta, estamos rodeados por uma nova era de instantaneidade. Somos adeptos do aqui e agora. Não temos paciência para esperar pelas coisas. Gostamos de tudo personalizados de acordo com as nossas preferências. Uma geração para a qual a tradição é algo do passado e a história não é assim tão importante. Fazemos compras à distância de um click, para serem entregues à nossa porta. Corremos. Passamos a vida a correr. Temos sempre um destino ao qual queremos chegar no menor tempo possível. O relógio controla a nossa vida. É esta a geração marcada como novo alvo de mercado e, sobretudo, é esta geração que dita as tendências.

 Uma das maiores reflexões acerca da sociedade em que vivemos e a sua evolução é a obra de Michel Serres, “Thumbelina”– “Pulgarzinha”, em português, publicada no ano de 2012.

 Desde sempre que o Homem tem tendência a evoluir. Segundo Darwin, as espécies evoluem segundo uma seleção natural, onde as que estão melhor preparadas para os obstáculos que se atravessam no seu caminho, acabam por sobreviver e reproduzir-se, transmitindo a característica que lhe permitiu sobreviver à geração seguinte. Como o autor refere, a geração atual é diferente de todas as outras. Porquê? Pois, como a imagem assim o descreve, acontecimentos que, para nós, marcaram uma geração, como o 11 de setembro, a morte da princesa Diana ou até ao fenómeno Beatles, para estas novas pessoas são apenas história que aconteceu quando ainda não eram vivos.

 A geração “polegar”, como é descrita no livro, é uma geração para a qual a guerra é uma realidade que não existe. Estão habituados a viver em cidades, rodeados de um meio maioritariamente recente, tecnológico e avançado. A tradição é algo que não conhecem, embora saibam que, eventualmente, “os avós viviam lá na terra”. Acabaram por se tornar muito mais independentes e autónomos embora, a meu ver, esta seja uma falsa independência pois, a maioria dos jovens desta geração, procura um tutorial de youtube de como coser um botão numa camisa ou de como fazer arroz.

14741732_1315253508499594_474892330_n.pngDeixou de se dar valor ao cheiro a livro novo ou até ao simples ambiente das bibliotecas da cidade. Esta geração, parte da minha geração, acaba por ser bombardeada com tanta informação no dia a dia que o nosso filtro tem um tamanho extremamente reduzido, comparativamente aos nossos pais ou até irmãos. Se quisermos algo, abrimos o computador e procuramos. Somos diretos, adquirindo apenas o conhecimento que nos é necessário naquela altura. Os cortes de papel foram substituídos pela falta de bateria, assim como os livros como prenda de Natal foram substituídos por dinheiro “para comprares uma coisinha bonita para ti”.

 Creio que estamos a formar uma geração um pouco (e permitam-me o termo) estúpida. Fútil. A minha mãe chamar-lhe-ia “chapa 3”, pois esta geração, a nossa geração, apenas se preocupa com conhecimento imediato, de uso rápido. Decoramos informação para a usar nas horas seguintes e a esquecermos. Esta geração não é preocupada com a cultura geral pois, para saber quem foi o primeiro presidente Americano ou quem foi o Dalai Lama, basta abrirem o Google.

 Somos uma geração onde a formação de ligações é cada vez mais fácil. Claro que temos de entender ligações como algo completamente digital, onde, a maioria das vezes, nem existe contacto visual entre as pessoas. Somos uma geração com uma necessidade incrível de exposição ao mundo: o que comemos, o que 14658343_1315248305166781_1837545482_n.pngouvimos, com quem estamos, onde vamos ou até o que usamos. Pessoalmente acredito que esta exposição resulta de uma necessidade de afirmação da maioria dos jovens que, por não conseguirem atingir os seus objetivos ou por falharem, tentam levar uma vida paralela nas redes sociais. Alimentam-se de gostos, de comentários, e de tudo o que servia para alimentar o ego, ferido pela realidade e pelas pessoas que os rodeiam. O espaço de diálogo, tradicionalmente composto por um emissor e um recetor, foi alargado. As redes sociais permitiram-nos isso. O autor chega mesmo a dizer que “…vivemos num espaço distribuído com vizinhos bastante próximos. Eu posso falar contigo a partir de minha casa e tu podes escutar-me de um sitio qualquer…” (pg.12)

 A meio da sua obra, Serres chega mesmo a reflectir acerca da posição desta geração relativamente à escola e ao método de ensino. Como já foi dito, para além de viver da instantaneidade, esta geração tem um acesso facilitado a todo o tipo de informação, seja ela relevante ou não.  Desta acumulação de informação, acabamos por utilizar o computador como um auxiliar de memória, algo exterior ao nosso cérebro, que acumula informação por nós. Desta maneira, o nosso cérebro acaba por preencher menos espaço, o que faz da nossa geração bastante criativa. Temos facilidade em encontrar soluções rápidas, eficazes, que resolvam os nossos problemas. A substituição da escrita pelo digital acabou por marcar, também, este ponto da revolução tecnológica. Aliás, caímos no ridículo de o digital tentar imitar, ao máximo, a escrita: tiramos apontamentos em folhas brancas digitais, temos post-its digirais, com pequenos recados ou até canetas para desenhar nos ecrãs tacteais, como se fossem verdadeiras folhas de papel, como o autor diz: “… The page dominates us and guides us. And the screen reproduces the page…”(pg.22). O que nos esquecemos é que nada disto tinha sido possível sem a escrita, e o atestado de insignificância que lhe passamos acaba por ser tão natural que nem damos por conta. O autor defende que o nosso regime de ensino não é ideal para estas novas gerações e que ainda não se conseguiu reformular. Os alunos “desligam” das aulas, acabando por falar entre si ou agarrando-se aos diapositivos móveis, ignorando os professores enquanto falam. Já não estamos a conseguir captar a atenção dos jovens e a despertar o seu interesse pela informação divulgada, pois a informação ao seu alcance é tanta que, se quiserem, consultam.

 No último capítulo da sua obra, Michel Serres aborda o tema da sociedade e a nossa ligação com o meio que nos rodeia. A facilidade ao acesso de informação, a criação das redes sociais e o fenómeno da globalização fez com que mais pessoas ficassem despertas para certos assuntos que, outrora, eram apenas discutidos por profissionais em ambientes de elite. Tornámos-nos donos de opinião e merecedores de a partilhar com quem achamos mais pertinente. Passámos a questionar e a perguntar, algo que, provavelmente, há vinte anos atrás não faríamos. Somos donos de uma voz e cada vez mais temos tendência a abusar do nosso direito de “Liberdade de Expressão”, capturarprovocando um fenómeno que o autor descreve como “presunção de competência”, o facto de acreditarmos que temos conhecimento suficiente acerca de algo para “opinarmos” sobre este. O poder da informação tornou-se inigualável, sendo um dos mais importantes. Na sociedade de hoje tão depressa podemos brilhar como a seguir estamos “debaixo de terra”, com informação desnecessária revelada. Esta geração pôs de lado valores como a tradição, a honra ou o prestigio de lado, preocupando-se, não em cultivar uma imagem correta de si mesmo, de acordo com as suas crenças, mas em agradar os que nos rodeiam, dando prioridade a terceiras opiniões. Somos secretos e públicos ao mesmo tempo, uma dupla identidade transmitida através de uma realidade virtual facilmente manipulável.

 Para finalizar o autor afirma que a nossa sociedade apenas irá evoluir se todos os povos se juntarem para essa finalidade. Temendo a estagnação da nossa era, o autor sublinha a necessidade de criar ligações humanas, fortes, que nos queiram fazer melhorar e continuar no tempo.

 Como futura profissional de Relações Públicas acredito que esta é uma geração com a qual podemos aprender bastante, pois o mercado é deles. São os novos geradores de opiniões e consumidores. Para além de críticos, são alguém que se movimenta facilmente e relativamente rápido no meio. Assim, acho que a instantaneidade é uma faculdade que deve ser cada vez mais valorizada, assim como a rapidez de atuação. A reputação de uma organização passou a se algo que, para construir demora anos para depois levar segundos a ser  destruída.O mundo está à distância de um clique e, qualquer informação que demore mais de três segundos a ser encontrada, já passa a ser desvalorizada. Esta geração obrigou a que as organizações se reinventassem todos os dias, a toda a hora. Novas prioridades foram estabelecidas, assim como assistimos a uma reformulação de mensagens a transmitir, Estamos cada vez mais a apostar numa divulgação de informação que apele à memória sensitiva, que fique retida na memória do consumidor, tornando a organização em algo “top of mind”. Creio que o grande desafio que enfrentamos hoje em dia é o lidar com opiniões diferentes, divulgadas através de várias plataformas, e a dificuldade que é gerir isto tudo a uma escala global. Acredito que é este tipo de desafios que torna a nossa profissão tão desafiante e interessante nos dias de hoje. O risco, a rápida ação e a lógica são capacidades que passamos a utilizar no dia a dia. A criatividade nas organizações passou a ser valorizada. Basicamente, é tentar equilibrar os pratos da balança, mesmo quando metade do mundo se encontra apenas de um lado desta.

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