“Todos os caminhos vão dar a Roma”

O ano passado tive a oportunidade de visita a sede das Nações Unidas, em Nova Iroque, para representar Portugal numa conferência internacional. Quando cheguei e disse que era de Portugal, a maioria dos americanos: ou não sabia identificar onde era ou então “ah, eu achava que isso ainda era Espanha”, o que, para ser sincera, me deixou um pouco magoada. Sempre fui adepta do que é nosso, do que é Europeu, porquê? Porque transpiramos história e um passado incrível com todos nós.

José Hermano Saraiva, um dos maiores historiadores portugueses, disse, quando questionado acerca do futuro:

“Olhe, qualquer que seja, continuará a haver noites de luar, Serra de Sintra e o Tejo a correr para o mar”.

Na sua obra, “A Ideia de Europa”, George Steiner aborda muitos dos temas com quais nos questionamos hoje. Aquilo que fomos, o que somos e aquilo nos que nos estamos a tornar, enquanto europeus, é a principal abordagem deste autor, que afirma que, no momento em que estamos, ainda é possível “dar a volta” e recuar do abismo no qual estamos prestes a cair.

A Europa, assim como todos os outros continentes, é feito e criado por pessoas que, ao longo de gerações, se têm vindo a modificar: a mudar os seus gostos, as suas opiniões, a sua maneira de ser, os seus valores, mas, essencialmente, a sua maneira de pensar. Se recuarmos um pouco na história encontramos uma Europa bem diferente da que é hoje em dia. Fomos, em tempos, a Inglaterra de Andrew Lloyd Weber, de Thomas Edison ou de Virgina Wolf, a Alemanha de Anne Frank e de John Sebastian Bach. Fomos a França de Coco Chanel, de Edit Piaf ou de Edgar Degas. Em Portugal, fomos Egas Moniz, José Saramago ou Vasco da Gama. Já fomos isto e muito mais. Carregamos a bagagem de um dos continentes com maior história do mundo, de viagens de descobrimentos, de 67 Prémios Nobel e de uma paisagem indescritível.

Acredito que, enquanto portuguesa e europeia, acabo para valorizar o que vem de fora, dando mais valor a outras coisas porque “lá é que é bom”, e acabo por esquecer a bagagem ancestral que trago comigo.

George Steiner acaba por descrever o nosso continente a partir de cinco pontos fulcrais na obra:

“Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado – em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas dos poetas; a nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas.”

            1)  Café

O Autor fala nos cafés europeus como uns verdadeiros criae06924763b6a516908816af0db67f30b.jpgdores de ligações e de redes humanas. É nos cafés que assistimos às mais variadíssimas conversas, de diversos níveis intelectuais diferentes, mas onde todas retratam a atualidade e a mentalidade de quem as partilha. São espaços de debate, de partilha de informações, onde as pessoas trocam impressões sobre as noticias que leram ou viram. Funcionam, muitas vezes, como “video vigilância”, onde se formam burburinhos e rumores acerca de quem passa por la. Os cafés acabam por ser uma coisa tão ordinária para quem vive cá que nem nos apercebemos da importância que estes tiveram, e têm, não só para a literatura, como p
ara o desenvolvimento cultural e cognitivo da própria população. Somos o único continente que pratica o ato de “ir ao café”, onde, por norma, fazemos muito mais que tomar café. Sentar numa esplanada, em tarde de sol, a apreciar as pessoas. Olhar, apenas. Nada desta beleza é padecidível de ser comparada a um pub irlandês ou até um simples bar americano.

“…E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custódio
jantava na quinta…”- Eça de Queirós, ” Os Maias”

“…As horas ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau…” – Eça de Queirós, “Os Maias”

         

             2) A paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia

Como sabemos, a Europa é um país carregado de história. A primeira referência a este continente aparece na obra Illíada, de Homero, cerca de 500 a.c. Já assistimos às maiores atrocidades da história, como a 2ªa Guerra Militar com o extermínio em massa realizado por Hitler, já passamos pela Guerra Fria, ditaduras e Guerras Civis, como a espanhola. Marcos como estes fizeram com que a nossa população fosse marcada por vários períodos sombrios, mas que também fez com que ganhássemos uma força inigualável e uma esperança no amanhã incrível. Como o autor enuncia

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“relação essencial entre a humanidade europeia e a sua paisagem. Metaforicamente, mas também materialmente, essa paisagem foi moldada, humanizada, por pés e mãos. Como em nenhuma outra parte do globo, as costas, os campos, as florestas e os montes da Europa, de La Coruña a S. Petersburgo, de Estocolmo a Messina, tomaram forma, não tanto devido ao tempo geológico como ao tempo histórico-humano.” .

Tudo o que conhecemos, a arte e a arquitetura, foram contruídas por mãos humanas, pelo trabalho, pelo esforço e pela dedicação, que vivem em perfeita harmonia com a Natureza que as rodeia e envolve. A Europa é a casa de alguns dos monumentos mais bonitos do mundo que, para além de o serem visualmente, trazem com eles uma história que conta muito daquilo que somos hoje. Apesar de ser constiuída por várias cordilheiras, rios e vales, a natureza europeia é convidativa, o que leva a que muitas pessoas a atravessem, a pé, para contemplar o verdadeiro mundo “onde o Homem ainda não mexeu”.

             3) As Ruas e Praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado

É um hábito extremamente europeu dar-mos o nome de pessoas importantes a sítios chave de cada cidade. Temos esse hábito onde homenageamos pessoas que mereceram que o seu nome fosse dado a uma praça ou avtransferir.jpgenida. O autor faz a comparação aos Estados Unidos, onde, por exemplo, Nova Iorque tem as suas ruas identificadas com números, que se cruzam com Avenidas, numa confusão de paralelismos e prédios todos iguais. As nossas cidades e ruas acartam com elas o peso da pessoa que as baptiza, tornando esta vivência da população com os seus ancestrais praticamente constante. Ruas como Miguel Bombarda, Garrett ou Ramalho Ortigão  são comuns em Portugal porque foi uma maneira de homenagearmos o legado destas pessoas que fizeram e const
ruíram para nós, segundo Steiner “até uma criança na Europa de dobra sob o peso do passado”. Mesmo o mais distraído acaba por ser confrontado com nomes de pessoas que não conhece, de gente que nunca viu ou ouviu falar, mas sabe da sua existência, “Um europeu culto é apanhado na teia de um in memoriam simultaneamente luminoso e sufocante.”

             4) A herança dupla de Atenas e Jerusalém

A cultura europeia é o resultado de uma mistura, que levou vários séculos, da cultura grega e israelita. De Atenas herdámos o amor às artes, à arquitectura, à musica, à retórica, à ciência e à filosofia. De Jerusalém retirámos a forte ligaculturaeepigenetica02.jpgção bíblica a Deus, o amor ao próximo, os valores que defendemos, o culto da família e dos almoços ao domingo. Com uma forte ligação ao negócio, somos negociantes, meticulosos, grandes pensadores, excelentes anfitriões. Como é possível de se ler no texto: “…Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías…” 

É possível observarmos todas estas heranças se olharmos par ao que nos rodeia: a música, o sistema de ensino, os teoremas matemáticos ou até as casas onde habitamos. A Europa ergueu-se sobre essas cidades, como, em bom português se diz “todos os caminhos vão dar a Roma”.

5) uma consciência própria escatológica

Infelizmente, somos um povo marcado pela desgraça. As guerras, as doenças e muita da miséria vivida ao longo da história faz com que nos prendamos constantemente ao pensamento do “isto está pior que nunca”. Temos uma visão bastante apocalíptica, mas é algo que já vem muito para trás. As profecias dos anos mil, as sete pragas, os dilúvios e as catástrofes naturais foram alguns dos exemplos que o Homem foi arranjando e tentado interpretar como possíveis sinais de um fim do Mundo. Profecias dizem, até que “…É como se a Europa, diversamente de outras civilizações, tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História…”Como jovem, acredito que é nestes aspectos que nos temos de começar a focar quando, diariamente, somos bombardeados com tanta informação, maioriamente desnecessária. Creio que já criámos um filtro tão largo a essa informação que, neste momento retemos apenas o essencial. Com essencial digo o que é essencial para nós, pois, por exemplo, para a minha mãe há coisas que são completamente obrigatórias de saber. Acho que a educação que temos hoje, mais do que nunca, dita aquilo que somos no futuro.

O autor assenta, ainda, o ser humano em três pilares:

aulós_large.jpg– um primeiro, representado pela música, onde o autor confirma e destaca o lado mais humano e sensível do ser humano, capaz de se integrar e criar algo que é comum a todos, uma cultura. A música acaba por ser algo pessoal, composto por alguém, que decidiu partilhar com o mundo a sua obra de arte. É na musica que o ser humano revela a sua verdadeira identidade, os seus verdadeiros fundos e crenças. É através da música que todos nos colocamos em sintonia, unidos por uma causa.

– o segundo pilar, representado na matemática, representa o lado mais racional de cada um de nós. O pensamento lógico a partir do qual tudo se constrói. Somos pioneiros no campo dos números, com a imensidão de sistemas e teoremas desenvolvidos. A matemática tornou possível o desenvolvimento de muitas das ctransferir (1).jpgoisas que nos rodeiam como as ciências, as físicas, a arquitetura, a pintura ou a tecnologia. Tudo é matemática, costumava a minha professora de secundário dizer. Até o meu próprio corpo, ao ser simétrico, é matemática. Acredito que o autor queira destacar, neste pilar, a capacidade de pensar do ser humano, que a distingue de todos os outros, mas, sobretudo, a capacidade de pensar europeia, que nos permite ver muito mais além do que outra pessoa qualquer

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– o terceiro e último pilar é o pensamento especulativo, que nos permite fazer bastantes deduções que foram essenciais para algumas das conclusões brilhantes do que já se criou. A especulação é algo comum a todo o povo, estamos constantemente a fazê-lo. Acreditamos nas coisas. Exigimos mais delas. Investigamos, procuramos, guiando-nos sempre pela vontade de querer saber mais.

 

 

 

Como esta obra, acredito que o autor criou uma espécie de “abre-olhos” à minha geração e à vindoura. É importante parar-mos de olhar para o lado e cobiçar tudo aquilo que não temos, porque, entre o que temos e a vontade de querer ter mais, vamos perdendo toda a cultura da qual fazemos parte. Pusemos um pouco de lado a nossa história e todo o suor que ela demorou a criar, para tentarmos ter um acesso mais facilitado àquilo que consideramos imprescindível. Acho que deixámos de lutar pelas coisas… A tecnologia e o mundo em que vivemos só nos veio facilitar a maneira como construímos e fazemos o nosso trabalho, sentados numa cadeira, a viajar de Roma ao Perú em menos de 10 segundos. A implementação de uma língua mundial também não ajudou pois veio retirar um dos poucos símbolos que cada país tem. Estamos cépticos e conformistas. Estamos a deixar apagar aquela chama que nos torna, no meu caso, portugueses. Passámos de uma nação europeia para uma nação global, onde os problemas do outro lado do mundo são também os nossos mas, os que se passam ao nosso lado não são da nossa preocupação. Perdemos valores e estamos cada vez mais frios no que toca às ações do dia a dia. Somos máquinas capitalistas onde o objetivo último é sempre angariar mais para mais gastar.

Acho que é necessário voltarmos à diversidade que nos caracterizava, os costumes únicos que nos marcavam, voltar a cultivar a tradição. Cabe aos filhos frequentemente cansados de Atenas e Jerusalém dar a volta a esta situação, voltando a colocar a Europa como um puzzle formado por diversas peças, que se juntam para construir algo único. Temos de deixar de perseguir o sonho americano, cultivado todos os dias, através da televisão e da rádio, quando o nosso continente oferece exatamente as mesmas condições com uma agravante ainda: para quê ir para outro sitio quando estamos em casa?

Há que abandonar o pessimismo, unir forças e voltar a fazer o que os nossos antepassados fizeram para que a Europa “não se derrube sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História”. Tudo isto vai depender da capacidade de dar a volta, da nossa capacidade de dar a voltar. Vai depender da maneira como encaramos amanhã e os desafios que este nos traz. Tudo isto vai depender de voltarmos a abraçar, com orgulho, a nossa cultura.

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