(Santa) Ignorância

De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa,  Nobreza define-se como:

no·bre·za |ê|
(nobre + -eza)

substantivo feminino

  1. Classe dos nobres, fidalguia.
    2. Qualidade de nobre, de excelente, de magnânimo.
    3. Antigo tecido de seda.

Por sua vez, Espírito está definido como:

es·pí·ri·to
(latim spiritus, -us, sopro, ar, alma)

substantivo masculino

  1. Coisa incognoscível que anima o ser vivo.
    2. Entidade sobrenatural. = ABANTESMA, ALMA, ESPECTRO, FANTASMA
    3. Ente imaginário.
    4. Ser de um mundo invisível.
    5. Conjunto das faculdades intelectuais (ex.: espírito curioso).
    6. Vida.
    7. Razão.
    8. Inteligência.
    9. Energia.
    10. Carácter, índole.
    11. Aptidão, capacidade.
    12. Opinião, sentimento.
    13. Intenção.
    14. Génio, talento.
    15. Pessoa.
    16. Imaginação, graça, engenho.
    17. Essência.
    18. Sentido.
    19. Ideia predominante.
    20. Tendência.
    21. [Religião]  Alma.22. Alma do outro mundo.

Juntando as duas definições creio que obtemos algo como a alma ou a ideia predominante que define nobreza, ou seja aquilo que faz de um espírito/essência de alguém excelente, nobre.

Pelo menos, é isso que Rob Riemen nos tenta definir durante a sua obra “Nobreza de Espírito – Um Ideal Esquecido”, editada em 2008, com um prefácio de George Steiner.

Este livro está dividido em cerca de três ensaios: o primeiro, onde o autor explica o porquê daquela obra ter acontecido, e o porquê do seu nome; um segundo, onde o autor faz uma pequena revisão e apreciação do trabalho de Thomas Mann, escritor romancista do séc. XX; vencedor de um Prémio Nobel de Literatura em 1929; o terceiro ensaio é dividido em dois capítulos – Conversas Contemporâneas e Coragem – acabando por ser esta parte o “sumo” de todo o livro. Aqui, encontramos uma colagem entre a realidade e a fição, onde o autor invoca grandes nomes como NietscheGoetheWhitman e Leone Ginzburg, que encarna o o ideal no espírito da sua missão.

Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa, disse:

“A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como anti poder.”

Em toda a sua obra, Riemen relembra-nos que todos somos livres de nos expressarmos e de nos manifestarmos consoante as nossas crenças e ideais. Apesar desta liberdade, a organização de ideias e a chegada a uma conclusão comum só é possível através do diálogo e do debate, pois, para o autor, o nosso objetivo é sempre acalmar as nossas preocupações.

“A liberdade – difícil e trágica liberdade – já não é mais o espaço de que o indivíduo necessita para praticar a aquisição da dignidade humana; é antes a perda dessa dignidade a favor da idolatria do ideal animal: tudo é permitido. O significado é desconhecido, o sentimento é substituído pelo objectivo. Experiências ‹‹divertidas›› e ‹‹saborosas›› substituem o conhecimento do bem e do mal. Porque o eterno não existe, tudo tem de ser agora, novo e rápido. Ninguém pode ser mais sábio, portanto todos têm razão. Todos são o mesmo, portanto o que é difícil é antidemocrático. A arte transforma-se em entretenimento, e a  fama das coisas ou das gentes é importante. A declaração de Gracián de que o peso material determina o valor do ouro mas o peso moral determina o valor humano é posta às avessas (..) O que é bom para o ouro, é bom para ti. Portanto comercializa-te! Adapta-te (…) é este niilismo da sociedade de massas que, como um cancro, ataca a civilização, o tecido conectivo da ordem social, e o destrói. O que resta sem esse tecido é uma quantidade ilimitada de indivíduos separados que no fim procuram destruir-se uns aos outros porque já não estão unidos por um valor universal mas seduzidos pela ideia de ‹‹eu sou livre, portanto tudo é permitido››” (Riemen, 2008, p.110)

Riemen, como grande apreciador do escritor Mann, acaba por seguir a mesma linha de pensamento que este, defendendo que só os valores Humanistas (criados no período Renascentista, thumbnail2maioritariamente) poderiam proteger a Humanidade de si mesma, ou seja, que se esquecesse-mos estes valores, construídos na base do fundamentalismo, iríamos encaminhar a nossa sociedade para um abismo. Durante toda a sua obra, o autor faz referências a grandes humanistas que acabaram por se dedicar a vida inteira à sua obra, não desistindo, apesar de tudo o que se passava na sua vida.
Temos exemplos como o de Camus, que acabou por pôr de lado os amigos, quando estes lhe disseram para pôr de lado a sua vida política; Sócrates,
que optou pela porte, quando lhe deram a escolher entre este caminho e o fim das suas dúvidas para com o mundo ou até Leone Ginzburg, escritor, professor e editor italiano, que acabou por morrer sob tortura, quando lhe pediram para este colaborar com o Fascismo e o mesmo ofereceu a sua recusa.

Durante toda a sua obra, Rob Riemen, tenta definir-nos um conceito de Nobreza de Espírito. O autor, como já foi referido anteriormente, segue, maioritariamente, a linha humanista para se basear neste conceito de Nobreza de Espírito. Ora, a corrente humanista diferenciou-se do resto das correntes até à altura pois, pela primeira vez, o Homem começa a colocar-se a si no centro do Mundo. Desperta-se o interesse para a ciência e para as vantagens que esta pode trazer à sociedade. Os Homens tornaram-se académicos. A preocupação com a retórica ajudam na afirmação da dignidade de ser humano. Passamos a ser racionais e não cépticos à realidade que nos odeia, pois a culpa já não está mais em Deus. Questionamos. Pensamos. Aferimos conclusões. Somos afetivos, práticos e racionais, tudo ao mesmo tempo.

Riemen acredita que tudo parte da nossa Mente. Mente esta que deve ter uma necessidade constante de se alimentar. Este conceito de Mente e de Nobreza de Espírito nunca podem ser desassociados, pois a grandeza da alma e a sua nobreza não se adquirem com bens materiais ou através de cargos Este estado sublime da alma atinge-se, aos poucos, à medida que crescemos e nos interessamos por o que nos rodeia, deixando para trás a monotonia com que encaramos o quotidiano e passando a questionar aquilo que temos como verdade absoluta. Para o autor, o individuo deve viver pensando e procurando aumentar sempre o seu conhecimento e sabedoria. Como a “educação vem de berço”, defende-se que a educação correta é aquela que aponta para isto mesmo, um sujeito livre de procurar e de questionar todo o conteúdo que aprende e encontra. Devemos ir à procura, deve partir de cada um alimentar a sua necessidade de mais.

giphy

É claro que, assim como esta premissa deve ser incutida, também deve ser transmitido o conceito de liberdade e de espaço visto que, ao conviver em sociedade, somos confrontados com outros sujeitos com os mesmos direitos. Como “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”, deve ter-se o cuidados de ensinar limites e barreiras, aqui personificadas em valores como a tolerância e o respeito.

Infelizmente, na sociedade em que vivemos hoje em dia, onde valores como o económico falam mais alto, acabamos por esquecer parte dos valores e das ideias que nos foram transmitidas ao longo da história. Esta Nobreza de Espírito exige a cada sujeito que se “liberte” da massa e da rotina que enfrenta todos os dias. O autor acredita que só é possível o desenvolvimento pessoal e da sociedade se cada individuo pensar por si e retirar as suas próprias conclusões da informação que é fornecida a todos. Esquecemos de que estamos a ignorar premissas tão básicas que têm vindo a ser transmitidas ao longo da História e que tanto tempo demoraram para ser aceites como é o caso de Democracia. Cada vez presenciamos mais uma sociedade apática que “vai com a maré” e onde a opinião da maioria é sempre a melhor. Tornámo-nos uma sociedade preguiçosa mentalmente, onde não fazemos o mínimo esforço para ir mais além.

Claro que os tempos que vivemos hoje em dia não ajudam a que esta cortina que se mantém sobre as pessoas se levante. O contexto de crise, as políticas de cortes, o capitalismo global e a sede por dinheiro fez com que as pessoas passassem a olhar com outros olhos para aquilo que lhes traz felicidade. Passámos de uma sociedade onde a sabedoria, o conhecimento e a verdade eram o expoente máximo da felicidade (quase que encarados como uma utopia), para uma felicidade material, reproduzida no ciclo de consumo dos produtos. Queremos o que está na moda. Somos movidos pela ganância e a sede constante de insatisfação. Resumindo, o valor económico ultrapassou, em praticamente todas as medidas, o valor cultural.

A Nobreza de Espírito é o que, em suma, nos move a saber mais. São os valores altruístas que nos fazem perguntar e refutar a3415743112_254f1fe50d_z realidades como ela se tende a apresentar aos nossos olhos. Como sabemos, o Mundo de hoje não vai ser igual ao de amanhã e isso deve-se à constante instabilidade em que vivemos. A dignidade humana foi reduzida a tão pouco. Na sociedade de hoje, até esta pode ser facilmente extinguida. Assistimos a um clima de medo, terror e desconforto, não só espacial, mas também social.
Os media e socialmedia vieram dar um pequeno empurrão para que pequenos acontecimentos se propaguem e se tornem fenómenos. Acredito que, no clima em que vivemos hoje, as pessoas estejam mais preocupadas com a sua própria segurança do que em aumentar o seu conhecimento. Preocupa-me que, hoje em dia, as pessoas se vendam por tão pouco, sobretudo por terem falta de conhecimento acerca do que lhes é apresentado. Preocupa-me que a minha geração não sabia quem foram pessoas como Catarina Eufémia, que Einstein escreveu a Teoria da Relatividade ou que Vivaldi era conhecido pelas suas sonatas para violino. Esta crescente despreocupação com o que já passou e a constante rejeição à história preocupa-me pois, como esperamos entender o que vivemos agora se não sabemos o que deu origem a tudo isto?

Infelizmente, creio que as pessoas hoje em dia esqueceram a ligação entre a cultura e a liberdade. E que este valor depende muito mais da inteligência e do conhecimento do que uma guerra de armas e forças. O que nos faz andar neste clima é a falta de vontade para a procura de soluções e o não podermos sustentar uma ideia pois não fazemos a mínima ideia do que argumentar. E não há nada mais triste do que a ignorância.

 

 

 

 

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