One for all and all for Love

No ano de 1985, o Grupo United Support of Artists for Africa, liderado por Harry Belafonte, Kenny Rogers, Michael Jackson e Lionel Richie, gravaram o single ” We Are The World”. As fontes de receita deste single seriam enviadas para a USA for Africa Foundation, que usou todos os lucros para as vitimas da fome e de doenças em África, em especial na zona da Etiópia.

 

Oscar Wilde dizia que:

” A sociedade existe apenas como um conceito mental, pois, no mundo real, existem apenas individuos”

Estamos, actualmente, a assistir ao “afundar” de um mundo que outrora foi nosso. Estamos a desagregarmo-nos, não só em termos sociais, como em termos financeiros, climáticos, geopolíticos e, sobretudo em termos éticos. É esta a principal questão que Amin Maalouf fala na sua obra “Um Mundo Sem Regras”, do ano de 2009. Maalouf, nascido no ano de 1949, é franco-libanês, ou seja, filho de pai libanês e mãe egípcia, nascido em França, com árabe como língua mãe. Vencedor do Prix Goncourt, no ano de 1993, e do Prémio Príncipe das Astúrias, no ano de 2010. É autor de diversas obras, fictícias e não fictícias, sendo que escreve em Francês e em Inglês.

Amin encara esta sua obra como um grito de alerta às nossas geraçõs atuais, que correm em contra-tempo para voltar a edificar a união mundial que partilhávamos. Precisamos, com uma certa urgência, de construir uma civilização com que todos os seus cidadãos se possam identificar, que lhes desperte o sentimento de pertença. Esta sociedade deve assentar em valores comuns, defendidos e partilhados por todos, onde a fé nesta nação se torne incontestável, essencialmente, onde a cultura tenha um lugar de destaque, trazendo esta diversidade que nos era tão característica de volta. Esta obra resulta da diversidade de identidades do próprio autor e a da sua necessidade que este sente em alertar para a maneira como nos afastámos uns dos outros, sendo, assim,uma reflexão cuidada e longa acerca deste mesmo tema.

Ao falar da obra como um grito de desespero, o autor conta-nos que, até agora, os homens sempre arranjaram maneira de manter a força e conseguir sair dos impasses que iam travando, conseguindo sempre dar a volta por cima. Neste caso, Maalouf questiona até que ponto é que não atingimos já o nosso limiar de incompetência moral? Será que chegámos a um ponto onde já aprendemos tudo o que há a aprender e começamos a regredir nas nossas capacidades intelectuais, ameaçando tudo aquilo que tem vindo a ser construído? Será que iremos conseguir impedir uma crise e retroceder em movimento? Atravessamos um período de descrença na democracia mundial, onde a nossa nação mundial não passa de uma pequena farsa. Quando se fundou o mundo, mas sobretudo a Europa, que hoje conhecemos, de portas abertas à circulação de pessoas, mercadorias, correntes de ideais e de ideias , nunca imaginámos que viríamos a perder toda a nossa identidade, como as nossas fronteira, as nossas instituições ou até o nosso próprio lugar no mundo. Neste momento não fazemos ideia de que rumo devemos tomar, nem para onde guiar os nossos países de modo a que se mantenham ou que voltem a ser aquilo que eram quando os conhecemos. Passámos de um mundo onde a nossa separação se baseava nas fronteiras espaciais e os ideais e a sua discussão, para um mundo onde a divisão acontece com base em interesses e onde o debate não tem praticamente lugar. Praticamos o “ou estás comigo ou estás contra mim”, tendo a opinião do outro perdido todo e qualquer valor.

A nossa época está marcada, sobretudoimages-1, pela falta de valores e pelo descrédito na humanidade. Deixou de haver universalismo, há menos racionalidade, muito menos humilde, rumo a um mundo sem debate livre. Esquecemos que estamos todos no mesmo barco e que somos obrigados a remar todos para o mesmo lado. Esquecemos que temos em nós, e nos nossos países, a força e as instâncias necessárias para debater os assuntos de forma útil de modo a chegar a conclusões para descobrir futuras soluções.

O nosso desagregamento intelectual, segundo o autor, deve-se à necessidade desnecessária de nos afirmarmos enquanto identidade, o que faz com que a nossa vivência em comunidade seja muito mais difícil. Por outro lado, o desagregamento financeiro e económico, representado pela crise global que vivemos, trará consequências que estão completamente fora dos nossos cálculo. A principal questão sobre a qual nos temos de debruçar é: “Como é que nos deixámos chegar a este ponto e como podemos dar a volta?”. Claro que tudo isto está longe de ser simples e fácil mas o que temos de perceber é que assistimos a um esgotamento das próprias civilizações e que já não se trata só de guerras e de confrontos.

O multi-culturalismo de Amin permite-lhe fazer uma análise entre as principais diferenças do Ocidente e do Oriente, em especial, do Mundo Árabe. O Ocidente atravessa uma perda progressiva de valores, como já foi referido anteriormente, contrastando com o Oriente, que atravessa um impasse histórico marcado por guerras ditas cristãs, sobretudo, porque não conseguem olhar para o próprio umbigo e perceber que o mal está dos dois lados e que um teimoso não teima sozinho. A única salvação aqui é perceber, mas, sobretudo, aceitar a diferença cultural e social, através do diálogo, da troca de ideias e do respeito mútuo. Para o autor, “somos todos uma nação e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação de muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história” . Durante a sua obra, o autor afirma mesmo que não existe diálogo entre as culturas se não houver pré-disposição para o conhecimento do outro e das diferentes religiões que este defendem – “a influência dos povos sobre as religiões é maior que a influência das religiões sobre os povos” – o que nos incentiva a conhecer um pouco mais da complexidade dos fenómenos sociais. O Ser Humano, como ser social que é, deve aprender a encontrar o equilíbrio entre o seu universalismo e as diferenças. O autor chega mesmo a apresentar uma solução para isto: “o Ocidente precisa de sair do excesso de confiança em si mesmo, enquanto o mundo árabe precisa de sair do poço histórico em que caiu”. O nosso grande problema é estranharmos o que não conhecemos e, por isso, temos medo, daí a nossa necessidade de nos afirmarmos como diferentes dos outros, exatamente para garantirmos que esta mesma diferença acontece. Como é de conhecimento comum, as diferenças entre o Ocidente e o Mundo Árabe acontecem graças as diferenças religiosas, àquilo que cada um deles defende e o grau com que o faz. Maalouf diz-nos que o problema reside, não nos textos sagrados, mas sim nas interpretações literais que são feitas dos mesmos e que guiam, tantas vezes, ao absolutismo. A tarefa de parar de culpar os ideais religiosos como causadores de todas as guerras civis é um desafio urgente e necessário, não para minimizar as diferenças culturais, mas para cultivar um ambiente de respeito e a criação de pontes, onde estejamos disponíveis para recomeçar e reconstruir.

Resumidamente, não podemos deixar que a globalização dê lugar a uma estagnação da sociedade e a sua própria uniformização. A rápida ascensão dos media fez com que nos tornássemos uma sociedade de instantaneidade de informação e nos ligasse por laços invisíveis, encurtando os espaços entre nós e tornando-nos mais próximos. Falta-nos saber e querer saber mais, falta-nos a capacidade de ir buscar informação necessárias aos sítios correctos. Temos de aprender que a indiferença perante as pessoas ao nosso lado mata a pequena capacidade e a oportunidade de as chegarmos, um dia, a compreender. Temos de apreendermos a colocar-nos no lugar do outro e de aprender a olhar para a diversidade cultural como um fator e uma oportunidade de enriquecimento mútuo. Há que perceber, também, o fator liberdade, de igualdade, mas, sobretudo, de responsabilidade. Pelas outras línguas, pelas outras culturas, pelos outros seres humanos. Há que procurar um momento em que as memórias e as convicções se completem e respeitem.

Chegamos a um ponto – diz Maalouf – em que morremos juntos ou nos salvamos juntos.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s