C’est ne pas un journal

José Saramago disse, numa das suas obras, o “Cadernos de Lanzarote – Diário II” a seguinte frase:

“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.

Todos os dias no cruzamos com situações que classificamos como rotina. A viagem de regresso a casa, os dias no escritório, a fila de supermercado ou até o simples serão no sofá são alguns desses exemplos. Expressões como desculpe, obrigada ou com licença são algumas que usamos a toda a hora, sem pensar, e que, como nós próprios dizemos, já fazem parte da rotina e que, pela sua repetição, até deixamos de pensar sobre elas

É exatamente por isso que a obra de Zygmunt Bauman é tão especial, pois transforma a rotina em objeto de análise e reflexão.

“Sinto-me incapaz de pensar sem escrever. Imagino que eu seja primeiro um leitor e depois um escritor – pedaços, retalhos, fatias e frações de pensamentos em luta para nascer, suas aparições fantasmagóricas/espectrais rodopiam, comprimindo-se, condensando-se e de novo se dissipando; devem ser captadas primeiro pelos olhos, antes que se possa detê-las, colocá-las no lugar e lhes dar contorno.”

Bauman consegue retirar um prazer único dos acontecimentos do dia a dia, com um olhar completamente exterior, mas carregado de sentimento e de opiniões. É uma descrição completamente realista do mundo e da realidade em que vivemos, com o cunho pessoa do autor, que não deixa de dar a sua opinião acerca do que o rodeia. A capacidade de análise e de compreensão de Zygmunt para com a sociedade é algo que não podemos, mesmo, deixar passar ao lado. O autor ensina-nos que o truque de uma análise tão clara é “colocarmos outras lentes” e ver o mundo de outra forma, diferente da que estamos habituados. É a maneira de darmos asas ao nosso lado mais crítico para analisar o que se passa a nosso redor.

O autor, nascido na cidade de Poznan, na Polónia, a 19 de novembro de 1925, é um sociólogo que serviu na Segunda Guerra Mundial, pelo exército da União Soviética. Fez parte do Partido Comunista Polaco, e acabou por se graduar na URSS, onde iniciou a sua carreira na Universidade de Varsóvia, até 1968. Neste momento é professore emérito de sociologia das Universidades de Leeds e Varsóvia. Marcado pelo seu pensamento eclético, ou seja, não segue uma teoria rígida, pegando em várias linhas de diferentes pensamentos, é um sujeito que não se restringe apenas a um pensamento, reunindo estilos variados.

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Os seus temas são sobretudo contemporâneos, acerca da vida das sociedades modernas, abordando as principais problemáticas sociais da sociedade contemporânea. Esta sua obra, “Isto Não É um Diário”, publicada em 2012, funciona como um alerta à nossa geração para tudo aquilo que estamos a construir e para onde estamos a caminhar.

Para além de uma chamada de atenção para a fragilidade das nossas ligações uns com os outros, um dos outros pontos importantes desta obra, é o alerta para com o nosso ritmo consumista e frenético, de andarmos sempre a correr de um lado para o outro. Apesar de parecer um diário, consagra-se por ser um livro maioritariamente reflexivo, composto por pequenos capítulos, com um título cada um e com a data em que foram escritos. Os capítulos têm titúlos principais do mês e do ano a que corresponde, sendo que cada texto tem o seu próprio sub-título, com a data em que foi escrito e um pequeno titulo que descreve o que vai ser falado. O primeiro capítulo começa em 2010 e está sempre escrito na primeira pessoa do singular (eu).

Os temas deste livro não poderiam ser mais atuais. Desde a maneira como os jovens estão a ser inseridos na nossa sociedade e a falta de vontade da nossa geração em adotar um futuro profissional, como o tempo, a tecnologia, as questões políticas e imobiliárias nos Estados Unidos, a crise enfrentada pelos governos, a democracia e muito mais. A maioria dos temas estão sempre relacionados com com as relações humanas, como a naturalização da mentira ou a fragilidade dos laços humanos.

A primeira parte do livro está dedicada a Janin Bauman, a sua mulher, que faleceu no ano de 2009. Foram casados 62 anos e foi na companhia  um do outro que o autor se descobriu a si mesmo. A ausência de Janin fez com que a necessidade do autor de se expressar se tornasse muito maior, daí o lado reflexivo tão grande da sua obra. Os seus textos vão desde o que significa a palavra de acreditar a reflexões mais profundas  como por exemplo, acerca do grau de fiabilidade que temos nas pessoas que nos rodeiam hoje em dia.

Na sociedade que construímos, e na qual vivemos hoje em dia, temos como premissa o facto de as pessoas que nos rodeiam não serem totalmente confiáveis. As nossas relações estão cada vez mais instáveis, o que torna muito difícil construir algo sólido, que não seja facilmente arruinado por um boato ou rumor. Estamos a formar uma sociedade que tem por base valores como a arrogância ou a presunção. Esta lacuna de confiar no outro é extremamente visível, por exemplo, na nossa predisposição face ao sistema político. Confiamos cada vez menos nas pessoas que nos governam, devido, também, ao nosso historial com as pessoas que nos lideram, e o que sofremos, sobretudo, desde o inicio do período de crise. O problema mais grave é que, ao vivermos numa época do digital, a mentira acaba por habitar dois mundos: o real e o virtual. A quantidade de informação que temos acesso e o meio através do qual acedemos à mesma é uma das muitas razões que nos faz desconfiar daquilo que encontramos online. Por quem foi escrito, quais foram as fontes de informação, quando foi escrito, são algumas das questões que nos assombram quando nos deparamos com informação desconhecida na internet. Creio que a nossa maior questão, neste momento, é quem e no quê podemos confiar realmente. O autor defende uma perspectiva de que estamos cada vez mais afastados, apesar de todas as redes mundiais criadas graças à partilha de conteúdos online ou a serviços de mensagens instantâneas. Tornamo-nos fechados no nosso próprio mundo. Virtualizamos as nossas relações, o que, como mencionei acima, fez com que as nossas relações não fossem duradouras. Porquê? Bem, apesar de partilharmos informação com as pessoas com quem conversamos virtualmente, essa mesma informação desactualiza-se facilmente pois, com mais de metade dessas relações, nem sequer partilhamos informações extremamente pessoas, o que nos permite corromper com os laços muito mais facilmente.

Outro problema descrito pelo autor numa das suas reflexões é a extrema exposição ao consumismo que a nossa geração sofre. As camadas mais jovens são mais mais fáceis de influenciar, pois são as que, não só estão dentro das tendências, como as ditam. Bauman chega mesmo a referir-se a esta geração como “terras virgens” frente ao mercado. É possível observar este fenómeno, sobretudo, na publicidade. Atualmente estamos constantemente a ser bombardeados por anúncios, não só nos meios de comunicação, como nos social media. É cada vez mais fácil aceder aos públicos alvo, sobretudo se estes forem os mais jovens. Adolescentes, dominados por um sentimento de pertença e de inclusão social urgente, atravessam vagas consumistas que fazem esgotar as mais variadíssimas modas. São eles que ditam as tendências, o que se usam e o que é fashion. É cada vez mais fácil expormos o nosso produto, especialmente se recorrermos a pessoas de influência do meio e os levarmos a usá-lo ou exprimentá-lo. Como vivemos numa época de instantaneidade, tudo é passageiro, o que faz do tempo um fator crucial neste mundo rápido. Assim, quanto menor for o tempo que alguém usa algo, mais competitivo e vantajoso se torna o mercado, pois as oportunidade de crescimento e inovação é maior. Infelizmente, assistimos a uma época onde as peças da Vista Alegre da Tia ou o relógio do Avô deixaram de ser relíquias ou coisas apreciadas (provalvemente, agora, até seriam consideradas vintage). Os nossos produtos são cada vez mais de fraca qualidade e de pouca validade, para permitir que o seu preço não dispare. Só assim é possível acompanhar o ciclo da moda e dos produtos trendy, o que faz com que o dinheiro não fique estagnado, mantendo, desta maneira, a rotatividade do mercado.

Todo este livro é marcado pela atualidade da altura, onde o escritor vai buscar inspiração às noticias que lê no mais variadíssimos jornais, desde política, relações sociais, educação, globalização e questões ambientais. Estes temas acabam por não ter nenhuma lógica em particular, a não ser a sua lógica cronológica. Como são escritos à medida que o autor se cruza com eles, faz com que o seu pensamento seja algo bastante verdadeiro, natural e fluído, pois, para além da sua análise crítica proveniente de um sociólogo, também a sua maturidade de quem já viveu e atravessou diferentes épocas, marcadas pela evolução da sociedade e de pensamentos, ajudam a que se construa uma peça tão característica como a de “Isto não é um Diário”.

Funcionando como um registo das suas inquietações acerca do mundo e da partilha das suas fragilidades pessoais, o autor termina a obra fazendo referência ao escritor londrino Herbert George Wells e ao sentimento de deslocação e de “não pertença” que ambos sentem. Enquanto Bauman participou na Segunda Grande Guerra e, por isso, foi deslocado de casa, H. G. Wells participou em imensas expedições e viagens, graças à sua veia jornalística.

Bauman termina este livro partilhando, com os leitores, uma ideia, também apoiada por Wells, de que uma sociedade justa era aquilo pelo qual nos devíamos juntar e lutar, por uma sociedade onde a saúde fosse um bem comum, e onde valores como a igualdade e a fraternidade se elevariam.

Apesar de o autor falar muito acerca da digitalização das relações e sentimentos, acredito que esta sua obra não difere dos conteúdos que estamos habituados a ler online, sobretudo em blogs ou em sites pessoais. Hoje em dia, assim como no inicio da Web, os blogs são um mundo em constante crescimento dentro do universo cibernético. As pessoas procuram, cada vez mais, um escape à rotina, que as faça sair da sua “bolha” diária de depressão rotineira, e, por isso, acabam por ver nos blogs um meio de se expressarem. Se repararmos bem, um blog (a não ser que tenha tema) acaba por ser um conjunto de desabafos da pessoa que o escreve. Por norma, estes desabafos acabam por ser desencadeados por episódios caricatos do dia a dia ou algo que já tem vindo a incomodar o blogger há algo tempo. Ao criarem um blog, as pessoas acreditam que se partilharem a sua experiência, vão construir uma onda de sentimento conjunta, onde mais pessoas se vão identificar com aquele texto e, assim, criar um sentimento de partilha. Acho que um blog funciona como um caderno de rascunhos, onde colocamos pequenos apontamentos, soltos, acerca de temas que nos interessam e importam. O facto de estarem online faz com que se torne muito menos pessoal do que, por exemplo um diário. Esta obra seria um sucesso pois, para além de estar bem redigida e de falar de temas atuais, também tem um tom crítico que toda a gente aprecia. Acho que faz parto do “Zé Povinho” gostar de ler artigos e comentários onde as pessoas critiquem tudo o que se passe à volta delas, desde o regime político, ao escândalo das amantes do Rei de Espanha.

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Acabei por escolher a imagem do cachimbo de Magritte, pois, para além de ser um dos meus pintores favoritos, considero esta imagem bastante poderosa. Assim como é possível ler “isto não é um cachimbo”, não é mesmo – trata-se da representação de um cachimbo e, por muito fiel que seja, nunca o vai ser, pois será sempre a representação do mesmo. Assim,  acredito que não haveria melhor metáfora para ilustrar este livro.

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